domingo, 22 de fevereiro de 2015

O amor é um cano de ferro

Um relacionamento é como se fosse um cano de ferro num ambiente hostil, úmido, um cano que transporta água - quente e fria, num convite à mais inevitável e impiedosa corrosão, que podemos chamar de "desgaste".

Se este cano conseguir se firmar como tubulação, prosseguirá mas não incólume existindo como cano até que um dia seja trocado ou, melhor ainda, retificado, se possível for.

Os anos se incumbem de gerar muito desgaste e corrosão ao cano. É ferrugem por dentro e por fora. E a água passando, fluindo, a temperatura que aumenta e diminui sem avisar, o cano persiste, enferrujado mas lá.

Chega um ponto em que ou se faz algo para que o cano não rache e se quebre ou se desiste sem tentar consertar. Relacionamentos enferrujados são assim.

O desgaste é mais que normal, em alguns casos, nem era para acontecer, mas acontece e isso não faz do casal dois seres extraterrestres que produziram um resultado raro, de jeito nenhum.

Isso é ser humano, é consertar as arestas. Ferrugem sempre surge ao longo da vida de duas pessoas. O importante é entender que, juntas, elas já produziram tanta história, mas tanta história, que, jogar pro alto ou no lixo tudo isso sem tentar recompor é ser no mínimo idiota, irresponsável e egoísta.

O cano ainda está lá, firme, resistindo, fluindo água, mas está enferrujado, coberto de desgaste e ferrugem e corrosão e tudo o mais que se pode imaginar para prejudicar a visão dos envolvidos que conservam sentimentos sólidos porém ocultos por tantas intempéries.

Não pode deixar o cano quebrar sem retirar dele o desgaste da corrosão. É mais barato, é mais vantajoso para todos tentar limpá-lo que rachá-lo de vez para colocar outro cano.

O novo cano nunca será igual ao cano que quebrou por falta de tentativa de restauração. As junções jamais serão as mesmas. Serão novas, mas não tão solidas porque hoje tudo é de plástico, os relacionamentos também são de plástico e não mais de ferro como muitos anos atrás.

Nunca serão.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Espelhos planos, saídas falsas, voo, solidão (Violeta de Outono)

Quando nascemos somos espelhos intactos...



Ao longo da vida, rachaduras aparecem...


Em alguns casos são tantas, que a realidade se desvirtua...


Dores atrozes causam muito mais rachaduras...


No meu caso, os estilhaços já são uma "coleção":


Só me sinto sem eles quando estou com os meus mas, principalmente, com o meu amor, minha filha, que me torna inteiro de novo, pelo menos enquanto está ao lado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Desencontros


Quando eu te convidar pra sair, diga não em vez de enrolar
ou diga sim somente para enrolar pois enrolando é que a gente se prende
cada vez mais com um tipo de nó que pode nunca se desfazer
e só dar prejuízo, mágoa e tristeza,
inesperada decepção.

Quando eu te convidar para entrar, diga não em vez de aceitar se for ficar só na defesa, quase sempre fugindo de mim.

Some de vez.

Não trate com desdém o pedaço da vida que estou lhe entregando, enchendo de detalhes e idiotas desculpas o que não tem justificativa nem nexo nem lei.

E dá licença que eu to indo agora pra não mais te chamar para a minha alegria que é dar risada, beber ou fingir que a vida é um teatro sempre cheio de risos, comédia feliz.

A relação entre duas pessoas é quase sempre uma via dupla de desencontros.
Mas depende muito da direção do vento.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Síncope


Na solidão da tua síncope todos nós trememos tanto quanto seus gritos que certamente esgarçaram tuas cordas vocais sem nenhum sentido ou parâmetro ou fim.
Teu corpo estendido no espaço fez do tempo um espaço bem longo para sabermos se tua sobrevida seria na vida ou logo ali, na esquina da dor.
Porque a dor está diante de nós sem disfarce ou fantasia, é a própria realidade da história que se traveste de vida para nos levar sem aviso a lugares sem canto, sem piso, sem céu.
Ao limbo.
Entramos em pânico na incapacidade de entendermos o que poderíamos ter visto mas que os próprios segundos passando voando nos proibiram de ver.
Quando enxergamos já era tarde, teu corpo retesado dos pés à cabeça, agonia profunda, nunca mais deixaremos para trás.
Mas a Saúde e a Paz finalmente voltaram, deixando todos tranquilos, escangalhados mas bem.
Quarta-feira 13.


ps: texto diz respeito a uma situação especial por que passamos em grupo, hoje, mas que terminou bem.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Falo comigo




O calabouço da solidão dói.
É uma cela na prisão do silêncio. Não há com quem falar a não ser consigo, não há com quem comentar, rir, perguntar, não há nada, só há você.
Chorar pode.
A solidão é um estado físico. Sólida, se permanente, líquida, se mergulhada em lágrimas, gasosa, se vivida dormindo, embalada por um bom tarja preta.
E daí vem a arte de fingir que se é louco.
Porque quem fala sozinho no mínimo parece louco.
Eu evito, prefiro ficar mudo.
Mesmo assim dói porque você sabe que não fala nada só para não parecer louco.
E daí acaba falando. Falando consigo, sozinho.
Ficando louco.
Mas a solidão tem data certa para acabar. Não sei o dia, mas vai acabar.
E acabará quando ela já não for mais nada, não quando eu encontrar outra pessoa para dividi-la.
Sim, porque duas pessoas dividem as próprias solidões. São dois solitários juntos, nem sempre completos.
Conheci pessoas que se bastavam ao longo da vida, sem precisar forrar a relação com amigos, parentes, cachorros ou gatos.
Nada contra quem tem, por favor. Mas tudo contra quem tem só para preencher o vazio da inexistência do outro.
A solidão está dentro de você. O ambiente reflete o que está no seu coração. Você pode estar no metrô com outras mil e quinhentas almas. Mas continuará sozinho se não admitir que carrega consigo, e por onde for, a solidão que deseja te assassinar.
Porque, sim, ela pode matar se você não fizer nada.
Ela vai te consumir, sugar tua força, te deixar com sono, sem fome, sem ânimo para fazer nada.
Vai virar depressão, daí virão o abismo, as trevas, o fim da linha.
Mate a sua solidão antes que ela enegreça as cores da sua vida.
Fale sozinho!